Wifredo Lam
Ano, local de nascimento 1902, Cuba
Ano, local de morte 1982, França
Filho de pai chinês e de mãe mestiça, Wifredo vive a infância na natureza luxuriante de Sagua la Grande, que o marca profundamente: mais tarde, em 1916, a família instala-se em Havana. Frequenta aulas na Academia Nacional de Bellas Artes San Alejandro, que confirmam a vocação de pintor. Beneficiado com uma bolsa, parte para Espanha, em 1923. Tem vinte e um anos e a intenção de deslocar-se a Paris. A estada espanhola prolonga-se por catorze anos, período de formação e de contacto com a arte ocidental, antiga e moderna, mas também de confronto com acontecimentos trágicos, a morte da mulher e do filho, em 1931, e depois a Guerra Civil espanhola, onde luta ao lado das forças republicanas.
A visita a uma exposição dedicada a Pablo Picasso e conversas com Manolo (Manuel Hugué) – que o pode recomendar – motivam-no a ir até Paris, em 1938. O encontro com Picasso, que se entusiasma com o seu trabalho, é decisivo. Lam é introduzido por este no meio dos pintores, escritores e críticos e conhece então André Breton, Georges Braque, Henri Matisse, Joan Miró, Fernand Léger, Paul Éluard, Michel Leiris, Tristan Tzara, Daniel-Henry Kahnweiler, Dora Maar, Óscar Dominguez, Jacques Hérold, Asger Jorn, Pierre Mabille, Christian Zervos… Também conhece Pierre Loeb, dono da Galerie Pierre, em Paris, que organiza a sua primeira exposição individual em 1939.
No início da Segunda Grande Guerra, Lam deixa Paris e vai para Marselha, onde muitos amigos, nomeadamente surrealistas – Breton, Mabille, René Char, Max Ernst, Victor Brauner, Dominguez, André Masson, Hérold ou Benjamin Péret –, estão reunidos, na Villa Air-Bel, aguardando a partida para os EUA graças ao corredor de fuga aberto por Varian Fry, membro do Comité Americano de Socorro aos Intelectuais. Durante esta estadia forçada, relaciona-se com Breton e desenha muito, ilustrando em particular o seu poema Fata Morgana (éditions du Sagitaire) e participando na criação do Jeu de Marseille, jogo de cartas inspirado no tarot. Breton dedica-lhe o seu importante artigo «A la longue nostalgie des poètes…» (que será republicado em Le Surréalisme et la peinture): «Lam, l’étoile de la liane au front et tout ce qu’il touche brûlant de lucioles» (Lam, com a estrela de liana na testa e tudo o que toca a arder em pirilampos). Wifredo Lam embarca finalmente em 1941, na companhia de Breton, Victor Serge e Claude Lévi-Strauss; torna-se amigo de Aimé Césaire quando fazem escala na Martinica.
De regresso a Cuba, após dezoito anos de ausência, Lam aprofunda as pesquisas sobre a cultura afro-cubana, em particular os rituais, que descobre com um fervor novo, iniciado pela madrinha, sacerdotisa de uma religião tradicional dos afro-cubanos. Assiste a cerimónias públicas da santería e às iniciações ñáñigos. Retorna às suas origens e afirma o seu caráter primitivo. Abandona nas pinturas os recortes demasiado geométricos para pintar «selvas» povoadas de aparições, uma espécie de floresta primitiva cujos habitantes mascarados com formas desarticuladas se assemelham ao seu ambiente, onde se misturam o reino animal e vegetal, de onde emanam impressões de ameaça, de segredo, de violência latente.
Apesar de residir em Cuba durante a guerra, lança a carreira em Nova Iorque, onde expõe desde 1939 na Pearl Gallery, depois regularmente na galeria de Pierre Matisse, a partir de 1942 (com um texto de André Breton). Participa na View, a revista do grupo surrealista reconstituído, e em exposições coletivas como First Papers of Surrealism (Madison Avenue Gallery, 1942). Em 1944, o Museum of Modern Art compra-lhe The Jungle [A Selva], de 1943, que provocara escândalo quando apresentada na galeria de Pierre Matisse.
No final de 1945, reencontra – no Haiti – André Breton, que ali viera proferir um ciclo de conferências. Na conferência de 20 de dezembro, o escritor convida a assistência a descobrir a exposição das obras de Lam, no Centre d'art em Port-au-Prince, para a qual prefaciara o catálogo: o seu texto «La Nuit en Haïti»… será republicado em Le Surréalisme et la peinture. É nesta ocasião que o pintor assiste, com Mabille e Breton, a cerimónias vudu que o irão marcar profundamente.
Depois da guerra, divide o tempo entre a Europa, Nova Iorque, Caracas e Havana, e viagens na América do Sul. Relaciona-se com Jackson Pollock e Robert Motherwell, nos Estados Unidos, com os membros do grupo CoBrA e depois com os do movimento Phases, na Europa. A Galerie Loeb, em Paris, dedica-lhe uma nova exposição individual. Participa nas atividades do grupo surrealista, entre as quais na exposição Le Surréalisme, em 1947, na Galerie Maeght, para a qual imagina um altar vudu. O estilo evoluiu. A influência da arte oceânica, combinada com a arte africana e a presença de elementos esotéricos, torna-se mais dominante: pinta formas vegetais entrelaçadas nas quais aparecem figuras míticas, destacando-se verticalmente sobre fundos sombrios. A notoriedade é doravante internacional. Permanece durante um longo período em Abissola Mare, em Itália, fazendo desta aldeia um centro de experimentação artística e um local de encontro.
AC
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