Jacques Villeglé
Ano, local de nascimento 1926, França
Após a conclusão dos seus estudos secundários, em Vannes, e de um ano de trabalho numa agência de arquitetura na mesma cidade, Jacques Mahé de la Villeglé, que se irá chamar Jacques Villeglé, ou simplesmente Villeglé, inscreve-se, no ano letivo de 1944, na École des beaux-arts de Rennes. Pouco tempo depois, conhece Raymond Hains, oriundo de Saint-Brieuc, com quem irá criar uma cumplicidade duradoura. Trabalha durante algum tempo para um arquiteto, depois vai estudar arquitetura na École des beaux-arts de Nantes (início 1947 – conclusão 1949). Em agosto de 1947, começa a colecionar objetos encontrados na praia de Saint-Malo, fios de arame farpado que teriam servido para armar o cimento de um bunker da Muralha do Atlântico. A seu ver, estes objetos, sem a menor intervenção de um artista, constituem esculturas. Em dezembro de 1948, Hains e Villeglé – bem conscientes da sua ignorância em matéria de arte moderna e contemporânea – encontram-se em Paris e visitam as galerias. Conhecem, também, Collete Allendy que apresenta na sua galeria desenhos de Jean Arp, Wassily Kandinsky, Alberto Magnelli e Joan Miró. Em 1949, Villeglé e Hains arrancam juntos o primeiro cartaz rasgado: Ach Alma Manetro.
Villeglé deixa Nantes para se instalar em Paris. Duvidando da utilidade do ensino que recebe e perguntando-se para que serve a pintura, abandona os estudos e decide, conscientemente, dedicar-se, daí em diante, aos cartazes rasgados. Recusa, ao mesmo tempo, a abstração técnico-científica construtivista dos abstracionistas e as configurações biomórficas automáticas dos surrealistas. Interessa-se pelos papéis recortados pós-guerra de Henri Matisse, não só em razão do novo tipo de desenho assim engendrado, mas também por reação: enquanto Matisse cola, ele descola para chegar, finalmente, a resultados semelhantes. Esta sua necessidade de fazer da rua o seu atelier e de se ocupar do quotidiano da cidade, corresponde também a uma ideia de «contracultura» percetível durante os anos a seguir à ocupação alemã. Villeglé escreveu, a propósito da sua abordagem: «O rasgar representa para mim um gesto primário, é uma guerrilha de imagens e de signos. Num gesto de raiva, o transeunte anónimo distorce a mensagem e abre um novo espaço de liberdade. Para mim, os cartazes rasgados aproximam a arte da vida e anunciam o fim da pintura de transposição...» e «Ser a testemunha ativa de uma humanidade rica em contradições é uma das minhas ambições. É o anónimo da rua que intervém sobre os reflexos da cultura dominante... Eu venho depois».
Villeglé trabalha então com seu amigo Hains, que fotografa, desde 1947, e filma, em 1948, as paredes cobertas de cartazes (Hains expõe, a partir de 1948, na galeria de Colette Allendy, as suas Photographies hypnagogiques [Fotografias hipnagógicas]). Realizam curtas-metragens experimentais. Villeglé participa na composição das letras explodidas, que Hains fotografa a partir de 1947 através de uma trama de vidros estriados, e em diversos filmes, como Pénélope e Loi du 29 Juillet 1881 ou Défense d'afficher [Lei de 29 de Julho de 1881 ou afixação proibida]. Publicam em colaboração Hépérile éclaté, poema fonético de Camille Bryen, e frequentam o meio letrista. Conhecem, no início de 1954, François Dufrêne, e assistem aos seus recitais letristas. Este apresenta-os a Yves Klein. A primeira exposição de cartazes rasgados e descolados do artista, Loi du 29 Juillet 1881, tem lugar na primavera de 1957, na galeria de Colette Allendy. Conhecem Gérard Deschamps, que já lá havia exposto.
Em junho de 1959, Villeglé apresenta sozinho os seus cartazes rasgados no atelier do pai de François Dufrêne. O título da exposição, Le Lacéré anonyme [O rasgado anónimo] – título de homenagem a todos os laceradores desconhecidos – coloca tanto a questão da criação individual quanto a da expressão coletiva popular. Em outubro, a primeira Bienal de Paris, no Musée d'art moderne de la ville de Paris, causa um enorme escândalo, devido à presença dos cartazes de Villeglé, Hains e Dufrêne, das esculturas-máquinas de Tinguely e das pinturas monocromáticas de Klein. Todas estas formas de pôr em causa a pintura tradicional irão permitir o surgimento de um grupo de criadores que será, doravante, apelidado de Nouveaux Réalistes.
Deste momento em diante, Villeglé torna-se uma figura maior dessa geração, presente em exposições como The Art of Assemblage, no Museum of Modern Art (MoMA) de Nova Iorque, em 1961, depois em Dallas e San Francisco ou The New Realists, na Sidney Janis Gallery, Nova Iorque. A escolha dos cartazes a pilhar irá evoluir, passando de temas sociopolíticos ao circo e aos concertos, mas Villeglé não cessará de «descolar» e prossegue com a sua atividade até hoje.
AC