Vallauris-Perthus
Data 1969
Técnica Vinílico sobre platex
Dimensões 150 x 200 cm
ID Inventário UID 102-494
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Joaquim Rodrigo realizou, durante a década de 1950, uma pintura abstrata concretista, mas no início da década seguinte reformulou a sua pintura e as questões de natureza política, nomeadamente a realidade colonial (não só do seu país), como a relação da Europa com África, tornaram-se dominantes. A partir de 1969, as viagens ocupam por completo a sua pintura. Como afirmava «pode dizer-se destas pinturas que são como vestígios de viagens». Por isso o título de cada pintura é constituído pelos dois termos da viagem.
A teoria da cor que construiu no final da fase abstrata reduziu a paleta a quatro cores (vermelho, amarelo, branco e preto), que designou como cores férteis, as únicas cores formadas por substâncias que estão na origem da vida. O fundo destas pinturas é assim uma mistura de todas as cores. Individualmente elas constituem os signos inscritos nessa superfície.
Cada um destes signos reporta-se a um acontecimento percecionado durante a viagem que é, numa primeira fase, a da própria viagem, registado num bloco de notas apenas por uma ou duas palavras e não pelo tradicional esboço desenhado. É então a partir destas notas que Joaquim Rodrigo posteriormente realiza a pintura. Os signos são inscritos da esquerda para a direita, como se a superfície pictórica fosse uma página destinada a uma escrita da memória cujo ato de escrever produz as imagens. Estas estão relacionadas com as perceções da viagem, são assim a sua escrita visual.
As situações nunca são explícitas e encerram em si inúmeras histórias. Na sequência dos signos percebemos uma dimensão narrativa, mas nunca nos é possível encontrar nela uma história com princípio, meio e fim. A diversidade de códigos destes signos é ampla. Joaquim Rodrigo passa frequentemente da linguagem verbal para a visual e vice versa. Pode descrever em termos esquemáticos uma situação, citar uma imagem, associar-lhe um nome, referenciar um livro, representar um troço de uma estrada, a planta de uma parte de uma cidade ou reduzir a cidade a um nome minúsculo. Todos estes signos posicionam-se no plano pictórico como marcas de um trajeto e a pintura passa a definir-se como uma cartografia de acontecimentos sem uma ordem específica que os una que não seja a do exercício memorial produzido pelo sistema pictórico que inventou.

Pedro Lapa