Cadavre Exquis
Data 1933
Técnica Lápis de cor sobre papel negro
Dimensões 23.7 x 31.5 cm
ID Inventário UID 102-77
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É provável que tenha sido Jacques Prévert quem tenha inventado, na rue du Château em Paris, com os amigos Yves Tanguy e Marcel Duchamp, uma versão do jogo dos «pequenos papéis»: um primeiro jogador escreve um nome num papel e dobra-o; o segundo escreve um verbo e esconde-o por sua vez; os outros fazem o mesmo com um complemento, adjetivos... A seguir desdobram-se todos os papéis e descobre-se uma frase, às vezes estranha ou cómica. Este jogo tomará, mais tarde, o nome de «cadáver esquisito», por causa da primeira frase nele encontrada, por acaso, e que impressionou particularmente os participantes: «o cadáver esquisito beberá o vinho novo». A versão em desenho, inventada muito provavelmente por Yves Tanguy e André Masson, virá a seguir. O primeiro participante desenha qualquer coisa no lado esquerdo da folha deixando transbordar ligeiramente alguns traços ou formas para o outro lado da folha; o segundo jogador inicia a sua parte do desenho a partir destas pontas soltas, sem ver o que tinha sido feito anteriormente, e assim sucessivamente. Inicialmente, os cadáveres esquisitos desenhados seguiam a estrutura de uma frase e utilizavam por isso uma folha de papel disposta horizontalmente. Depois, os surrealistas, dando aos seus traços uma forma antropomórfica, necessitavam de uma folha na vertical: na parte superior o primeiro desenhava a cabeça, o segundo o tronco... Devido à importância dada ao acaso no ato criativo, o cadáver esquisito apaixonou todos os surrealistas, tornando-se o jogo emblemático da atividade coletiva do grupo.
Este cadáver esquisito pertence à segunda geração dos jogos surrealistas (a primeira sendo da época da rue du Château, dos anos 1925-1928). Ao contrário da grande maioria dos desenhos, não está disposto verticalmente. Os lápis de cor no papel preto foram utilizados pelos mesmos quatro autores em vários desenhos coletivos deste período (como no caso do desenho pertencente ao Museum of Modern Art de Nova Iorque). Em geral, estes desenhos são muito mais elaborados do que os de 1925. O papel não revela nenhuma dobra: é provável que os participantes, devido à qualidade do vergé, tivessem adotado outra estratégia que consistia em esconder o que já tinha sido desenhado anteriormente. Os autores não podem ser identificados porque não há ruturas evidentes no desenho a não ser as pernas do tronco feminino, na parte superior esquerda. Pode supor-se que este tronco, em cima à esquerda, seja de um dos participantes; as duas cabeças sejam da autoria de um segundo, e os outros elementos, uma espécie de “preenchimentos”, sejam dos dois últimos participantes. Como nesta matéria nem Breton nem Tzara eram verdadeiros profissionais do desenho, podemos provavelmente atribuir-lhes a paternidade dos «preenchimentos». A dupla cabeça corresponde à arte de Valentine Hugo, e a parte superior esquerda será então da autoria de Greta Knutson. Este cadáver esquisito foi muito provavelmente realizado numa noite de jogos em casa de Tzara e da sua esposa Greta, em Montmarte, no n.º 15 da avenue Junot. Esta casa, notável devido à sua arquitetura, construída entre 1925-1926 pelo vienense Adolf Loos (que Tzara conheceu em 1917 em Zurique), tornar-se-ia num ponto de encontro dos surrealistas, com destaque para o amigo do casal, Paul Éluard. Este último e a esposa Nusch participaram igualmente em jogos durante este período na avenue Junot.
Este desenho data de 1933, ou seja, um ano a seguir à rutura entre Breton e Valentine Hugo que, no entanto, ficaram amigos e vizinhos.
AC
Adquirido no Étude Libert-Castor, Paris, 8 de dezembro de 1997.