Horizonte de Acontecimentos
Data 2008
Técnica Instalação com vários elementos escultóricos, pedra, ferro, camera obscura e projecção de filme de 16mm.
ID Inventário UID 102-1676
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A originalidade da obra de João Maria Gusmão (1979) e Pedro Paiva (1968) destaca-se, não só em contexto nacional como também em contexto internacional. Trabalhando em co-autoria desde 2001, as suas experimentações têm variado entre a fotografia, o filme de 16 mm e a instalação. Mediante o recurso às teorias de autores como Bergson, Nietzsche ou Heidegger, as obras caminham no objetivo de desconstruir qualquer sentido pré-estabelecido e afirmar o múltiplo – promovem-se à margem do compreensível e do comunicável, fomentando simultaneamente a impossibilidade do espectador «presenciar o acontecimento sem se converter em náufrago» (Natxo Checa, 2009).
Estimulando estados de incerteza, Horizonte de Acontecimentos (2008) não representa uma excepção na linha condutora que medeia os seus trabalhos. Nesta obra, a carência de luz e o cenário tratado sem sofisticações contribuem para o caráter obscuro que a dupla intenta. Por seu turno, esta obscuridade provoca no observador o indiscernível que revela o transcendental ou, por outro lado, declara a condição material dos fenómenos (Gusmão e Paiva, Diálogos Abissologistas). Consequentemente, assistimos à demanda por um jogo que constrói, mediante a inclusão do espectador num lugar ficcionado, narrativas desconexas sem tempo nem espaço exatos. A noção de náufrago é, então, imposta neste universo de ambiguidades que assenta em pressupostos «abissológicos» – que significará a corda suspensa que desafia as leis da gravidade?
A Abissologia, ciência que estuda o abismo, é, nesta obra, assumida para testar os limites do próprio conhecimento – transitório e nunca absoluto. Neste contexto, surgem múltiplas ficções que, por sua vez, dão lugar a um livre arbítrio de significações que não se pretendem, em momento algum, substantivadas. Como escreveu Victor Hugo, «quando se abre o infinito, não há encerramento mais formidável» (O Homem que Ri, 1869).
AMB