As Abóbadas Interiores da Terra: figuras arquitetónicas nas ekphrasis planetárias, de Kant a Kracauer

As Abóbadas Interiores da Terra: figuras arquitetónicas nas ekphrasis planetárias, de Kant a Kracauer
27/10/2021
- 27/10/2021
Horário: 
17:00
Preço: 
XI Ciclo de Conferências ECATI/MCB - Imagens da Terra
0,00 €
As Abóbadas Interiores da Terra: figuras arquitetónicas nas ekphrasis planetárias, de Kant a Kracauer
Preço: 
XI Ciclo de Conferências ECATI/MCB - Imagens da Terra
0,00 €
Corpo de texto: 

As Abóbadas Interiores da Terra: figuras arquitetónicas nas ekphrasis planetárias, de Kant a Kracauer
Orador: João Borges da Cunha

Dos mitos ctónicos ao modelo tectónico da formação; de Os Trabalhos de Hesíodo ao cálculo perimétrico de Eratóstenes; da Gheograficá de Estrabão, e as Viagens de Marco Polo, à indexação geológica das eras: há um caminho, sem retorno, que o Ocidente não deixou de trilhar, e é o da transformação da Terra de sujeito em objeto. Trata-se de um objeto que, reenviando-o à física aristotélica, a modernidade científico-filosófica reclama, até hoje, como devendo ser tratado pela empiria e traduzido por uma mathesis universalis, libertando-a, assim, da suspeita disciplinar desses dois saberes fundadores: a geografia como descrição subjetivante dos lugares; e a geometria como detentora de idealidades suprassensíveis. Larga-se a Terra a tornar-se uma inebriante imagem técnica no quadro da astrofísica, ou cenário de aceleração, no enredo da física das partículas. O certo é que aqueles dois saberes, geografia e geometria, ciências da terra por excelência — mais que não seja por força etimológica —, não deixaram de exercer o seu prestígio discursivo a partir do que nelas é central enquanto método: uma escrita da Terra — como descrição, ou como medida. É este olhar que importa restituir, vendo que a modernidade não teve como evitar esse exercício homérico, e protocientífico, de ter na Terra o abismo nietzschiano que, de tanto ser fixado, nos devolve o olhar. Veremos como as ekphrasis, sobretudo as que se reclamam do espaço e da arquitetura, não baixaram guarda nos fenómenos humanos e naturais: desde o grande terramoto de 1755, nos Escritos de Immanuel Kant, arquiteto dos sistemas da razão, até Siegfried Kracauer, esse arquiteto transformado em pensador da cultura no tempo das Grandes Guerras — o que não deixará, ainda agora, de mostrar a sua fertilidade, na época das alterações climáticas, por exemplo, com o Handlungsräume de Ulrich Beck. A Terra continua a ser olhada de acordo com a máxima, artística, na Poética de Horácio: ut pictura poesis.

Arquiteto pela Faculdade de Arquitetura da Universidade de Lisboa. Participou no desenho dos Pavilhões da representação «Portugal à l’honneur» do «Salon du Livre Paris 2000», comissariada por Eduardo Prado Coelho. Prémio Literário Branquinho da Fonseca Expresso/Gulbenkian. Doutorado em Estudos de Cultura com tese sobre representações arquitetónicas na novelística modernista. Publicou ensaio em estudos inter-artes, ficção e teatro. Cenografia e arranjo gráfico da iniciativa «Carole Fréchette em Portugal», promovida por Sofia Borges, pela Companhia de Teatro de Sintra e o Conseil des Arts du Canada. Investigador do Arq.ID — Lusófona e Colaborador do CICANT

Conferência apresentada no âmbito do XI Ciclo de Conferências Internacionais, intitulado "Imagens da Terra", organizado pela Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias de Informação da Universidade Lusófona, em conjunto com o Museu Coleção Berardo.
Quarta-feira, 27 de outubro às 17h00.
Auditório do Museu. Entrada gratuita, sujeita ao limite de lugares disponíveis.