Terra Incógnita: Infinito em todas as direções

Terra Incógnita: Infinito em todas as direções
29/09/2021
Horário: 
17:00
Preço: 
XI Ciclo de Conferências ECATI/MCB - Imagens da Terra
0,00 €
Terra Incógnita: Infinito em todas as direções
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XI Ciclo de Conferências ECATI/MCB - Imagens da Terra
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Corpo de texto: 

Terra Incógnita: Infinito em todas as direções
Orador: Jonas Runa

Após infindáveis milénios de existência apontada ao coração da Terra, que constituía o fundamento do seu sentido, a humanidade inaugura gaguejando uma nova época geocentrífuga. Mas não foi sempre o plano secreto das árvores crescer em sentido contrário à gravidade? Não desejaram continuamente os pássaros ultrapassá-la, com seus voos em ziguezague? Não foram os besouros, embora cegos a estrelas individuais, perpetuamente orientados pela luz da Via Láctea? Hoje, morre-se no espaço exterior à Terra, caso dos três cosmonautas soviéticos expostos ao vácuo, em 1971: a Terra não está já no princípio e no fim de toda a vida. Cortado o ancestral umbilifio, como aconteceu a Ícaro, precipitamo-nos para um novo abismo - terra incognita, infinito em todas as direções.
Compreendemos por fim a finitude da Terra, que perante a imensidão do Cosmos nos aparece tão efémera, contingente e singular como qualquer dos afetos da vida. Aprendemos que o Sol e todas as galáxias do firmamento deixarão de existir, apesar de os termos imaginado outrora como o fundamento mais firme da eternidade. Violência terrível sobre os sentidos e a faculdade do conhecer: que resta de um mundo onde expulsámos a vida, a perceção, a alegria, a tristeza, o prazer, a dor, a cor e o som? Deduzimos a existência de um universo mais estranho do que aquilo que podemos sequer supor. Consolaram-se alguns fazendo ressuscitar Descartes, ao erguer todos os aspetos que podem ser formulados em termos matemáticos como propriedades da exterioridade em si mesma: estruturalismo profundo.
Não, não se trata apenas de uma aceleração de tendência geocentrífuga. O império das utopias convida ainda a navegar para além das galáxias, ultrapassar os oceanos do espaço e do tempo, “sair” do próprio universo. Tal é a natureza dinâmica da relação do pensamento com a exterioridade: poder observar a Terra a partir de fora simboliza nada menos que o eclodir de um território antes considerado incognoscível. No entanto - paradoxo do conhecimento - o jogo implica que o desconhecido aumenta incessantemente, ou seja, que “a consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência”.
Na verdade, todas as imagens da natureza do mundo possuíram sempre dimensões da ordem do fascínio e do prazer - vaguear anárquico, errático, assistemático, libertário. Assim será esta breve conversa, até porque, como disse Benjamin, as ideias estão para os objetos tal como as constelações estão para as estrelas.

JONAS RUNA é artista, investigador e professor universitário. Os seus trabalhos artísticos foram apresentados no Museo Guggenheim Bilbao, 55.ª e 56.ª Bienal de Veneza, 798 Art District (Pequim), ARoS Aarhus Kunstmuseum, Galerie Scheffel (Frankfurt), Logos Foundation (Ghent), Museo de Arte Contemporáneo (Santiago do Chile), Théâtre de la Ville (Paris), Arnold Schoenberg Hall (Haia), Yorkshire Sculpture Park (Reino Unido), Fundação Calouste Gulbenkian e Casa da Música, entre outros.
Estudou física e matemática no Instituto Superior Técnico e Sonologia no Royal Conservatory of the Hague. É doutorado em ‘Ciência e Tecnologia das Artes’ pela Universidade Católica Portuguesa, e pós-doutorado em ‘Artistic Research’ pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas/Universidade Nova de Lisboa. Professor na Universidade Lusófona, é também Co-IR do projeto FCT 'Technologically Expanded Performance' e desde 2021, membro da Academia de Ciências de Lisboa (seminário jovens cientistas). Em 2007 criou o duo ZUL ZELUB, com Jorge Lima Barreto, para piano e música eletrónica de arte.

Conferência apresentada no âmbito do XI Ciclo de Conferências Internacionais, intitulado "Imagens da Terra", organizado pela Escola de Comunicação, Artes e Tecnologias de Informação da Universidade Lusófona, em conjunto com o Museu Coleção Berardo
Quarta-feira, 29 de setembro às 17h00.
Auditório do Museu. Entrada gratuita, sujeita ao limite de 35 lugares disponíveis.